1. Introdução
O presente artigo tem como objetivo refletir sobre a relação trabalho, educação e práxis na perspectiva da ontologia marxiano-lukasciana. Como diz Lukács (2013, p. 159) todo fenômeno social, "pressupõe, de modo imediato ou mediato, eventualmente até remotamente mediato, o trabalho com todas as suas consequências ontológicas". Para ele, Marx assinala o trabalho como forma originária da práxis humana e Engels, tempos depois, põe o trabalho no centro da humanização do homem, a partir das condições biológicas percebe o papel do trabalho no salto ontológico, dessa forma, entende que nesse momento de desenvolvimento da humanidade existe um salto no qual o homem já não se encontra dentro da esfera biológica, mas em superação qualitativa, ontológica (LUKÁCS, 2013, p. 45).
No entanto, o complexo do trabalho se modifica e se desenvolve historicamente, tornando a sociedade cada vez mais complexa, por isso, no processo de reprodução social, para dar conta de toda complexidade humana, outras formas de manifestações sociais são criadas para resolver as situações postas e dadas na realidade. Emerge daí, a existência de outros complexos sociais que juntamente com o trabalho compõem o que Lukács denominou, "complexos de complexos": a sociedade.
Dessa maneira, as discussões são apresentadas em dois momentos: no primeiro momento discutimos a categoria trabalho, à esteira da ontologia marxiano-lukacsiana fundante da práxis social; no segundo momento, discutimos o papel dos outros complexos na reprodução social, com ênfase na educação. Finalizamos, portanto com as considerações à guisa de conclusão.
2 Metodologia
O estudo consiste numa reflexão teórico-bibliográfico cuja literatura se baseia fundamentalmente no marxismo, principalmente em seus fundadores Marx e Engels, e em Lukács, responsá1vel pelo resgate da ontologia marxista. Além disso, lançamos mão de outros autores que 'vieram a contribuir na reflexão seja ligado ou não ao marxismo.
Partimos de uma abordagem dialética, pois Lukács (2013, p. 63) citado por Freitas (2015), observa a importância da consciência no processo de transformação da natureza, ou seja, na reprodução social, o filósofo húngaro assegura que "somente no trabalho, no pôr do fim e de seus meios, como um ato dirigido por ela mesma, com o pôr teleológico, a consciência ultrapassa a simples adaptação ao ambiente" dessa maneira a consciência não pode do ponto de vista da ontologia ser considerada um epifenômeno. Isto irá diferenciar o materialismo dialético do materialismo mecanicista. É bem verdade que para o materialismo a realidade existe independentemente da consciência, todavia, para o marxismo, não há uma hierarquia entre objetividade-subjetividade e sim uma relação dialética.
3. Discussão dos Resultados
O trabalho para Marx é um processo que ocorre entre homem e natureza regulado e controlado por ele mesmo, que ao se defrontar com a matéria natural, modificando-a, põe em movimento sua corporeidade e modifica a si próprio. Em A ideologia alemã Marx e Engels (2007, p. 87) apontam que os homens "[...] começam a se distinguir dos animais tão logo começam a produzir os meios de vida, passo que é condicionado por sua organização corporal". No texto, Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem, Engels (2004, p. 11) falando sobre o trabalho é bastante enfático: "[...] É a condição básica e fundamental de toda vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem".
De acordo com Marx (2013), o trabalho é uma atividade orientada a um fim, ou seja, há uma ideia que antecede o objeto do trabalho, é o que Lukács (2013) vai denominar de prévia-ideação, mas que se efetiva através de posições teleológicas, grosso modo, um pôr um fim, uma finalidade ideal a ser objetivada. A prévia-ideação é um momento abstrato, mas que opera uma função fundamental na práxis social, pois por ser abstrata permite que os homens confrontem "passado, presente e futuro" e projetem, "idealmente, os resultados de sua práxis". Todavia, só se efetiva se for objetivada, materializada em um objeto, decorre daí duas relações importantes, a partir da consciência responsável pela objetivação e do objeto: primeiro, sem a prévia-ideação o objeto não poderia existir; segundo, há uma distinção entre o objeto e seu criador, um não é o outro, procede daí a exteriorização, decorre desse movimento uma transformação objetiva e também subjetiva, pois ao criar o objeto o homem confronta os conhecimentos que já possui e a partir disso adquire outros conhecimentos a serem confrontados em sua relação de causalidade.
A exteriorização é esse momento do trabalho pelo qual a subjetividade, com seus conhecimentos e habilidades, é confrontada com a objetividade a ela externa, à causalidade e, por meio desse confronto, pode não apenas verificar a validade do que conhece e de suas habilidades, como também pode desenvolver novos conhecimentos e habilidades que não possuía anteriormente. (LESSA, 2007, p. 39).
Essa relação entre teleologia e causalidade ocorre na totalidade social e como assegura Lukács (2013) são categorias inseparáveis e, ao mesmo tempo, opostas entre si. O trabalho se distingue das formas mais desenvolvidas da práxis social, enquanto produtor de valores de uso, opera uma relação entre homem e natureza, na qual os objetos naturais por meio da atividade humana serão transformados em produtos numa relação teleológica e causal. Nas formas mais desenvolvidas da práxis social, torna-se possível a ação sobre outros homens, que em última instância, tem função de mediar a produção de valores de uso. Nesse momento, o fundamento ontológico também se constitui, pelos pores teleológicos e nexos causais postos em movimento, todavia, nesse caso, a natureza norteadora da ação é a tentativa de influenciar outros homens a realizar pores teleológicos de primeira ordem (transformação de objetos naturais em valores de uso). "Esse problema aparece logo que o trabalho se torna social, no sentido de que depende da cooperação de mais pessoas", dessa maneira "esta segunda forma de pôr teleológico, no qual o fim posto é imediatamente um pôr do fim por outros homens, já pode existir em estágios muito iniciais" (LUKÁCS, 2013, p. 83).
A partir disso, esse filósofo identificou dois tipos de teleologia: a primária, a qual através de uma prévia-ideação o homem atua sobre a natureza transformando-a respondendo aos nexos causais e engendrando outros; e, a secundária, meio pelo qual os homens influenciam outros homens a agirem conforme determinadas posições. Desse modo, no primeiro caso a relação se dá entre homem e natureza e põe séries causais em movimento; no segundo caso, as posições teleológicas põem em movimento outras posições teleológicas, ou seja, posições ideológicas. A teleologia ao ser posta em movimento gera outras posições teleológicas, ou seja, uma resposta a uma necessidade suscitará outras necessidades, que por sua vez, exigirá uma nova resposta, pois o trabalho é a produção incessante do novo. Em ambos os casos, a ideia inicial pode não coincidir com o resultado final. Se no primeiro caso, o resultado do processo de trabalho pode não coincidir com sua ideação, no segundo caso, há uma imprevisibilidade nos resultados ainda maior, pois recorre às subjetividades.
Como afirma o pensador húngaro o ser social só existe em um constante processo de reprodução que possui dois polos: o indivíduo e a sociedade, a individuação e a generidade. Dessa forma, o homem singular no processo de reprodução está sujeito à totalidade das demais esferas (tanto a orgânica como a inorgânica), mas também está sujeito a interação dos momentos singulares orgânicos e inorgânicos da totalidade. Ainda de acordo com Lukács, toda reprodução filogenética tem por base a reprodução ontogenética, entretanto há uma prioridade ontológica, já que o ser social possui uma ineliminável base biológica. Assim, podemos compreender que embora o homem tenha sua reprodução ligada ao processo de reprodução dos demais complexos, a totalidade consiste no momento predominante.
Lima (2009) referindo-se às indicações de Lukács sobre educação aponta que para esse estudioso a educação não é trabalho e sim práxis social, suas funções estão vinculadas à reprodução social. Portanto, na esteira da ontologia, cabe à educação tornar os homens aptos a reagir diante das situações imprevisíveis da vida, deve preparar os indivíduos a fazer as escolhas entre alternativas. Como o homem é um ser que dá respostas, a função da educação reside no fato de prepará-los para responder as causalidades postas, entretanto, como a reprodução se dá de maneira desigual nenhuma educação é capaz de preparar suficientemente, devido às contradições no processo reprodutivo.
A particularidade do complexo educativo reside no fato de realizar posições teleológicas secundárias, ou seja, de influenciar outros homens a determinadas posições teleológicas, a relação nesse caso não ocorre entre homem-natureza, na transformação de objetos naturais, mas entre os indivíduos, os quais desencadeiam outros nexos causais e impulsionam outras respostas, assim, a educação se vincula a reprodução social, mediando o indivíduo e o gênero humano, ou seja, encontra-se entre a individuação e a generidade humana.
Considerada em seu sentido lato, a educação se assemelha ao complexo da linguagem, pois além de possuir um caráter universal, ou seja, comparecer em todas as formas de sociabilidade, é espontânea e põe em movimento séries causais por meio de posições teleológicas secundárias, nisso consiste sua distinção do complexo da linguagem. Dessa maneira, a função da educação "consiste em articular o singular ao genérico, reproduzindo no indivíduo as objetivações produzidas ao longo do desenvolvimento do gênero humano e, com isso, possibilitando a continuidade do ser social" (LIMA, 2009, p. 110).
A educação, no contexto do comunismo primitivo, de acordo com os apontamentos de Ponce (2010), ocorria de forma espontânea, integral. Espontânea porque não havia instituições destinadas a esse fim, mas os conhecimentos, condutas, crenças eram transmitidas no meio social, de maneira que a criança incorporava a forma de ser, pensar e agir do grupo; integral porque era possível, por meio da atividade laboral, da práxis social, transmitir todo conhecimento e habilidades desenvolvidos pelo grupo até aquele momento. Com o advento da sociedade de classes e a separação entre pensadores e executores, a educação também foi cindida, uma educação teórica para aqueles que dispunham de condições para o ócio e uma educação manual para aqueles que estavam presos a terra e as atividades artesanais (FREITAS, 2015).
A partir desse momento emerge práticas educativas não mais espontâneas, surge a educação em sentido estrito, como Lukács denomina, cuja função é preparar para uma formação específica. Dessa maneira a educação em sentido restrito se assemelha ao complexo do direito, pois surge para atender a interesses particulares e não universais. Todavia, isso não elimina seu papel na práxis social, entretanto se encontra circunscrita as necessidades de um grupo particular fincada nos interesses antagônicos de classes. Não há, contudo, como adverte Lukács (2013) um limite metafísico entre ambas e sim uma mútua interferência, uma não elimina a outra, mesmo sendo atravessado pela sociedade de classe o sentido lato da educação não desaparece. "Se a educação em sentido restrito vai ter mais ou menos força na relação com a educação em sentido lato depende de cada momento concreto, não constitui uma regra universal" (LIMA, 2009, p. 115).
O pensador húngaro observa que a peculiaridade do ser social se evidencia ainda mais no complexo da educação, segundo ele, o homem, diferentemente dos demais animais, precisa ser preparado para responder adequadamente as situações cotidianas que ocorrerem no decorrer da vida, dessa maneira, a educação em sentido lato não será totalmente concluída, já que as circunstâncias as quais a educação em sentido restrito preparou podem não coincidir, exigindo outras posições. De acordo com esse filósofo se hoje a educação é obrigatória e universal e as crianças ficam fora do trabalho fabril esse tempo livre para a escolarização é fruto do desenvolvimento industrial, é uma demanda social e não biológica, assim, toda sociedade reclama "uma certa quantidade de conhecimentos, habilidades, comportamentos etc. de seus membros; o conteúdo; a duração etc. da educação no sentido mais estrito são as consequências das carências sociais daí surgidas" (LUKÁCS, 2013, p. 177).
4. Considerações finais
O trabalho funda a esfera do ser social, sem extinguir, contudo, a esfera inorgânica e a esfera biológica, o homem na sua evolução biológica e social, afasta-se das barreiras biológicas, mas não a elimina (nem poderia!) como disse Marx (2013): a terra é um arsenal de meios de trabalho, é o meio universal do trabalho, locus standi (local) do trabalhador e campo de atuação (field of employment). No que diz respeito ao complexo educativo como podemos perceber, possui fundamental importância no processo de reprodução social, mediando o indivíduo e a sociedade, por isso mesmo, no contexto da sociedade de classe está sujeito aos interesses da classe dominante com suas ideologias. Em sentido amplo ela é sempre contínua e inacabada. Em sentido restrito, a educação segue as imposições dos grupos dirigentes, todavia, nos assegura Tonet (2012) que a educação não é ao todo determinada nem ao todo determinante, há uma contradição presente, inerente ao próprio sistema do capital, pois se nela comparece as ideologias burguesas, também podem circular as ideologias formuladas pela classe trabalhadora formuladas no seio da luta de classes.
Palavras-chave: Ontologia. Trabalho e educação. Reprodução social.
5. Referências
ENGELS, Friederich. Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. In: ANTUNES, Ricardo. A dialética do trabalho. São Paulo: Expressão popular, 2004.
FREITAS, Maria Cleidiane Cavalcante. A reconfiguração da função social do pedagogo no contexto da Educação para Todos: um estudo na perspectiva onto-histórica. 2015. 116 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza,2015.
LESSA, Sérgio. Para compreender a ontologia de Lukács. Ijuí: Unijuí, 2007.
LIMA, Marteana Ferreira de; Trabalho, reprodução social e educação em Lukács. 2009. 128 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2009.
LUKÁCS, Gyorgy. Para uma Ontologia do Ser Social, 2. São Paulo: Boitempo, 2013.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Expressão Popular, 2007.
PONCE, Aníbal. Educação e luta de classes. 23. ed. São Paulo: Cortez, 2010.
TONET, Ivo. Educação contra o Capital. São Paulo: Instituto Lukács, 2012.