GRUPO TEMÁTICO: MARX: TEORIA E MÉTODO
A CATEGORIA DA HISTORICIDADE NA IDEOLOGIA ALEMÃ: AS BASES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO
Raquel Pereira de Morais - UFC
Ana Joza de Lima - UFC
Valdemarin Coelho Gomes - UFC
Michael Silva Costa - UFC
INTRODUÇÃO
Este resumo se debruça sobre a categoria da historicidade desenvolvida por Marx e Engels na obra Ideologia Alemã (2009). Nos estudos expostos nesses manuscritos, os autores criticam o pensamento alemão marcado pela valorização da atividade da consciência deslocada das circunstâncias reais e históricas. A importância desses escritos é o resultado, como explica o próprio Marx no prefácio de sua Contribuição a Crítica da economia política (2008), de um acerto de contas dos autores com a sua antiga consciência filosófica, por meio da crítica da filosofia pós-hegeliana, da qual eram adeptos. Com isso, Marx e Engels trazem à luz as bases do materialismo histórico-dialético, que expressam a superação da filosofia anterior na qual foram iniciados (a ideologia alemã de base hegeliana).
Para Marx e Engels (2009), a libertação desse tipo de filosofia, pautada na especulação tal como era desenvolvida pela intelectualidade alemã, se dá por meio das condições históricas e materiais que movem a produção humana (o comércio, a indústria, a agricultura entre outras) e não por um ato do pensamento. Marx e Engels, com isso, afirmam que não é a crítica pura ou determinada forma de pensar que diz e molda a realidade, mas antes, é na base material que se concentra o que de fato é o real.
Os mesmos autores partem da concepção materialista de Feuerbach, mas o criticam, porque esse desconsidera o homem como ser histórico real. A formulação feuerbachiana, embora materialista, implica na mera contemplação do mundo sensível como se esse fosse um dado imediato, eterno e sempre igual a si mesmo. Feuerbach assim, considera o homem como sensível e não como atividade sensível. Nesse sentido, por mais que haja uma tentativa de avanço em Feuerbach em superar o idealismo, ele não consegue avançar por não perceber o movimento histórico da atividade humana.
METODOLOGIA
Realizamos um estudo teórico-bibliográfico, debruçando-nos sobre a obra Ideologia Alemã, por meio de uma leitura imanente, tendo como foco a categoria da historicidade. Buscamos, nesse sentido, as palavras dos próprios autores que expõem sua concepção acerca da categoria da história e a relação desta com a realidade material e a reprodução social. Utilizamos a edição da editora Expressão Popular, mais especificamente no tópico Relações históricas primordiais, ou os aspectos básicos da atividade social: produção dos meios de subsistência, produção de novas necessidades, reprodução das pessoas (a família), intercâmbio social, consciência[1] (MARX; ENGELS, 2009, p. 40).
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Marx e Engels (2009) declaram que o produto da indústria e do estado de coisas da sociedade é o resultado da produção histórica de várias gerações, que desenvolveram sua base material em que as gerações atuais a tomam para si e a modificam sempre que houver novas necessidades.
Os autores explicam que o primeiro pressuposto da existência humana e de toda histórica é que os homens precisam suprir suas necessidades básicas para viverem. Isso é um elemento fundamental para se fazer a história, constituindo no primeiro ato histórico. À medida que homens vão desenvolvendo as formas de suprirem estas necessidades, outras vão surgindo. Com esse desenvolvimento histórico, no qual ocorre a renovação das condições diárias da existência, os homens criam outros homens, ocorrendo a complexificação da "relação entre homem e mulher, pais e filhos, a família" (MARX; ENGELS, 2009, p. 42). Quando surgem novas necessidades do mundo dos homens, as relações sociais se estendem para além da família, tornando mais complexas o modo de reprodução da existência por meio do trabalho. Foi a partir desses desdobramentos que se tornou cabível compreender a "história da humanidade" por meio da "história das indústrias e das trocas" (idem, p. 43).
A história corresponde ao suceder-se de gerações distintas em que cada uma explora à sua maneira, em condições sempre diferentes, os materiais para a sua reprodução, a partir do que foi produzido pelas gerações anteriores, pois a realidade é irreversível, como explora Lukács nos Prolegômenos para uma ontologia do ser social (2010). Com isso podemos dizer também que não se pode afirmar que uma realidade histórica é pressuposto da outra, como se a história fosse teleológica. O movimento histórico é complexo e não algo superior que tem o poder de dizer o que a realidade é na sua completude e como se tivesse o poder de indicar a finalidade de determinada situação no futuro, como se fosse causa e efeito. Marx e Engels (2009) exemplificam isso afirmando que a descoberta da América não ocorreu como finalidade para provocar a revolução Francesa.
A história mundial só passou a ser compreendida como história mundial quando as condições materiais e objetivas provocaram um desenvolvimento econômico mundial. Foi a realidade que possibilitou responder a esses fatos e não um espírito universal anterior a esses mesmos fatos.
A história que parte do modo como o homem organiza a reprodução da sua existência na relação como a natureza e com os homens, desenvolveu-se a tal ponto que originou as classes sociais, sendo uma dominadora e detentora dos meios de produção e que utiliza todos os recursos materiais e ideológicos possíveis pra se manter nesse estado de dominação; e outra classe, a dos trabalhadores explorados pela primeira, que para se libertar dessa condição de exploração, precisa destruir as bases materiais e ideológicas da classe dominante, tais como a propriedade privada e o Estado.
Em síntese, Marx e Engels apresentam o que seria a história para contrapor as teorias especulativas sobre a realidade que criam todo um arcabouço conceitual que muitas vezes se encontra descolado da existência tal como ela é:
A história não é senão a sucessão das diversas gerações, cada uma das quais explora os materiais, capitais, forças de produção que lhe são legados por todas as que a precederam, e que por isso continua, portanto, por um lado, ainda que em circunstâncias completamente mudadas, a atividade transmitida, e, por outro, modifica as velhas circunstâncias com um atividade completamente mudada, o que permite a distorção especulativa de fazer da história posterior a finalidade [Zweck] da anterior; por exemplo, colocar como subjacente ao descobrimento da América a finalidade [Zweck] de proporcionar a eclosão da Revolução Francesa. Desse modo, a história recebe então finalidades à parte e torna-se uma "pessoa a par de outras pessoas" (como sejam: "Consciência de Si [Selbstbewubtseins], Crítica, Único" etc.), enquanto aquilo que se designa com palavras "Determinação", "Finalidade", "Germe", "Ideia" da história anterior nada mais é do que uma abstração formada a partir da história posterior, uma abstração a partir da influência ativa que a história anterior exerce sobre a posterior (MARX, ENGELS, 2009, p. 54).
Os resultados encontrados, portanto, indicam que a categoria da historicidade possibilita o entendimento da realidade material, para além das especulações, análises idealistas e da concepção do materialismo vulgar, superando assim a filosofia alemã.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A categoria da historicidade desenvolvida por Marx e em colaboração com Engels na Ideologia Alemã é uma das principais bases do materialismo histórico-dialético na busca em compreender o real a partir do modo como os homens se relacionam com a produção da sua existência. Essa concepção diferencia-se das análises idealistas da realidade ao colocar como prioridade o elemento material sobre a atividade da consciência, mas considerando que esta realidade é produto da práxis humana, ou seja, a partir da atividade dos homens que historicamente constroem a sua história. Sendo a realidade histórica, revela-se a possibilidade de transformação da realidade e libertação das formas de alienação que acorrentam os homens e impedem uma vida emancipada.
Palavras-chave: Historicidade. Ideologia Alemã. Materialismo histórico-dialético.
REFERÊNCIAS
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo, Expressão Popular, 2009.
MARX, Karl. Contribuição a Crítica da economia política. 2. Ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
LUKÁCS, György. Prolegômenos para uma ontologia do ser social: questões de princípios para uma ontologia hoje tornada possível. São Paulo: Boitempo, 2010.
[1] O título deste tópico foi elaborado pelos editores.