RELAÇÃO TRABALHO E EDUCAÇÃO NO ROMANCE VIDAS SECAS: REFLEXÕES PARA EDUCAÇÃO DO CAMPO

LUIZ JESUS SANTOS BONFIM

Co-autores: POLIANA GOMES DE OLIVEIRA e LUIZ JESUS SANTOS BONFIM
Tipo de Apresentação: Oral

Resumo

 

FILOSOFIA DA PRÁXIS, EDUCAÇÃO, CULTURA E REVOLUÇÃO EM GRAMSCI

 

RELAÇÃO TRABALHO E EDUCAÇÃO NO ROMANCE VIDAS SECAS: REFLEXÕES PARA EDUCAÇÃO DO CAMPO

 

Poliana Gomes de Oliveira - UFPI

polyhanaoliveira@gmail.com

Luiz Jesus Santos Bonfim - UFPI

luizbonfim@yahoo.com.br

 

Introdução

 

            O interesse em realizar a pesquisa surgiu a partir da realização de atividades educativas do projeto de extensão: Trabalho, Educação e Formação Humana em escolas do campo desenvolvido pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), em um assentamento e um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), localizado na zona rural de Teresina-PI.

Dentre as ações que estão sendo desenvolvidas está a exibição de filmes e saraus literários, aspecto que demanda um processo de discussão, planejamento e estudo para definição dos livros e filmes a serem utilizados. O critério utilizado para essa seleção foi a presença de elementos que retratassem as contradições e problemas da realidade que seriam utilizados para a discussão crítica, portanto, indo ao encontro da estética lukacsiana, na qual, "[...] a arte afirma-se em sua irredutível especificidade, como uma intensificação do drama humano que na vida cotidiana se apresenta de forma descontínua, rarefeita (FREDERICO, 2000, p. 302)".  

Considerando que o projeto de extensão está vinculado a Educação do Campo, buscou-se também incluir filmes e obras literárias que remetessem a realidade rural, sem contudo, perder a referência do universal. Nessa direção, a obra escolhida para o primeiro sarau literário foi o romance Vidas Secas de Graciliano Ramos. Nesse sentido, o presente artigo comunica os resultados parciais do estudo dessa obra, a partir da seguinte indagação: Que elementos o romance Vidas Secas apresenta para uma crítica da realidade camponesa e da sociabilidade vigente a partir da relação trabalho e educação?

Dessa forma, objetiva-se discutir a relação trabalho e educação presente no romance Vidas Secas de Graciliano Ramos, a partir de um referencial marxista, buscando relações para o debate atual da Educação do Campo no Brasil.

 

Metodologia

 

Esta pesquisa do tipo teórica foi desenvolvida a partir dos fundamentos do Materialismo Histórico e Dialético de Marx (2011), pois, para compreender o real é necessário desvelar as multideterminados que o compõem. Nesse movimento, a análise histórica é imprescindível para revelar da aparência desarticulada e heterogênea em uma essência concreta.

O romance Vidas Secas traz elementos para uma reflexão sobre a realidade da educação do campo atualmente, iluminada pelo estudo teórico de textos de Marx e Gramsci bem como de seus ledores buscando captar a relação trabalho e educação.

 

Discussão dos resultados

 

O romance Vidas Secas foi lançado em 1938 e apresenta elementos da realidade do sertão nordestino vinculada ao cenário de uma sociedade brasileira cindida em classes que buscava alternativas a uma economia agrária assolada por uma crise mundial da economia capitalista conhecida como a "Grande Depressão" com origem nos Estados Unidos da América (EUA) em 1929.

Nessa direção, o sertão nordestino apresenta as marcas desse período, acentuadas pelas características regionais que traziam entre outras especificidades os longos períodos de seca que eram cada vez mais frequentes e adicionavam um toque de destino natural ao processo de exploração do trabalho. "Tinha obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente, conhecia o seu lugar. Bem. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim [...] (RAMOS, 2017, p. 97).

Essa exploração promovia a degradação humana intensificada pela sociedade de classes e a propriedade privada dos meios de produção, que leva os indivíduos a não se reconhecerem enquanto integrantes do gênero humano.

 

Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.

Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. (RAMOS, 2017, p.18).

 

            No excerto da personagem Fabiano está representado o processo de coisificação presentes nas relações capitalistas do trabalho. Fabiano é outra coisa, mas não é homem, pois a condição humana pressupõe as condições de prover sua existência de forma digna, dentre elas a posse dos meios dessa produção que geraria outra relação com o trabalho.

Para Marx (2004), o trabalho enquanto aspecto ontológico humano é o elemento que institui o homem enquanto ser social, ou seja, é na relação dialética com a natureza, que o ser humano a modifica, mas também é modificado por ela, sendo que deste movimento qualitativo, intencional e planejado surge a própria sociabilidade humana. No entanto, na modernidade, a cisão da sociedade em classes e a posse dos meios de produção pela burguesia faz com que o trabalho e seu produto assumam o valor de mercadoria restando aos despossuídos vender sua força de trabalho para sobreviver, portanto o trabalho vai perdendo sua característica de valor de uso para assumir predominantemente o valor de troca, processo esse que leva ao trabalho estranhado que

 

[...] engendra, portanto, não apenas a sua relação com o objeto e o ato de produção enquanto homens que lhe são estranhos e inimigos; ele engendra também a relação na qual outros homens estão para a sua produção e o seu produto, e a relação na qual ele está para com estes homens. Assim como ele [engendra] a sua própria produção para desefetivação, para o seu castigo, assim como [engendra] o seu próprio produto para a perda, um produto não pertencente a ele, ele engendra também o domínio de quem não produz sobre a produção e sobre o produto. Tal como estranha de si a sua própria atividade, ele apropria para o estranho a atividade não própria deste (MARX, 2004, p.87).

 

Fabiano, ao observar a si mesmo, adjetiva-se como "cabra", característica peculiar atribuída pelos homens da cidade aos que vivem no sertão. São vistos como os que devem servir, sobrevivem sob condições miseráveis, portanto, não tem posses e nem dispõe do produto do seu trabalho, ao contrário desefetivam-se do gênero humano pela forma de trabalho estranhado que desenvolvem no metabolismo do capital.

Dessa forma, observa-se também que com a propriedade privada e o trabalho estranhado afasta-se também a dimensão formativa do gênero humano comum nas sociedades difusas em que os seres humanos "[...] aprendiam a produzir sua existência no próprio ato de produzi-la. Eles aprendiam a trabalhar trabalhando. Lidando com a natureza, relacionando-se uns com os outros, os homens educavam-se e educavam as novas gerações (SAVIANI, 2007, p. 154)."

Nasce em seu lugar uma educação voltada para o espírito humano, dissociada da vida, destinada àqueles que não precisavam trabalhar para viver e para manter os que não trabalhavam, encerrando assim, a separação teoria e prática, sendo que a prática era vista como uma atividade de segunda categoria. Inaugura-se assim, o que Gramsci (2001) denominou de dicotomia entre a formação interessada e desinteressada que destinava uma formação distinta para as classes dominantes e para os subalternos.

Essa separação provoca uma dualidade na educação, denunciada por Gramsci na Itália e que veio a consolidar-se no Brasil ao longo do século XX, atravessando a educação formal até os dias atuais. De uma lado, para as classes dominantes uma formação humanística, propedêutica, do outro lado, para os subalternos, a educação profissional ou arremedos de uma formação de caráter geral. Essa separação cada vez mais afastou a escola da vida, fragilizando a formação do ser humano que requer de forma indissociável uma formação geral associada a uma formação específica. A fala da personagem Fabiano exemplifica essa questão.

 

Indispensável os meninos entrarem no bom caminho, saberem cortar mandacaru para o gado, consertar cercas, amansar brabos. Precisavam ser duros, virar tatus. Se não calejassem, teriam o fim de seu Tomás da bolandeira. Coitado. Para que lhe servira tanto, livro, tanto jornal? Morrera por causa do, estômago doente e das pernas fracas.

Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia. Seu Tomás da bolandeira é que devia ter lido isso. Livres daquele perigo, os meninos poderiam falar, perguntar, encher-se de caprichos. Agora tinham obrigação de comportar-se como gente da laia deles (RAMOS, 2017, p. 83).

 

            Nesse excerto, a personagem Fabiano expressa o distanciamento da educação formal da vida, concebida antes como um capricho, um privilégio destinado somente aos que não necessitam lutar no dia a dia pela sobrevivência imediata. Apresenta-se aí uma concepção de educação formal destinada às elites, às classes dominantes, com forma e conteúdo que não interessava aos camponeses, mesmo que os conhecimentos provenientes dessa formação (as secas iriam desaparecer?) por vezes até lhe parecerem importantes.

Gramsci (2001, p. 40) por meio da escola única do trabalho apresentou uma solução para o problema da dualidade do ensino. Essa escola, que teria como direção, o trabalho como princípio educativo, ou seja, a compreensão que a cultura geral produzida pela humanidade é produto da atividade humana sobre a natureza, atividade que pressupõe a não hierarquização entre teoria e prática, portanto não devendo haver separação entre uma formação desinteressada de uma formação interessada, "[...] significa o início de novas relações entre trabalho intelectual e trabalho industrial não apenas na escola, mas em toda a vida social.

Ao defender tal proposta o sardo tinha consciência da impossibilidade de sua implantação na sociabilidade italiana da época, uma vez que o Estado teria que assumir uma série de mudanças para não haver distinção da formação oferecida, que passaria necessariamente em tornar dever público, a tarefa de promover a educação das novas gerações. Nesse sentido, o Estado se responsabilizaria entre outras questões de organizar uma nova estrutura, contratação de mais professores para reduzir a relação aluno/docente e a oferta de educação integral entre outros aspectos. Portanto, distantes do papel concreto que o Estado vem desempenhando na direção da hegemonia do capital (GRAMSCI, 2011).

No cenário atual brasileiro, a reforma do ensino médio realizada de maneira impositiva por meio de medida provisória que altera de forma drástica a LDB 9394/96, acentuando mais ainda a dualidade da educação nos moldes do que realizou a Lei 5692/71.

Sob a verborragia da flexibilização, a reforma caminha passos largos para aprofundar as diferenças da educação oferecida para às elites e para os subalternos, confirmando o que Marx (2011) afirmara em relação a repetição dos fatos da história, a primeira vez se apresentam como farsa, a segunda como tragédia.

A educação do campo, mesmo com as parcas conquistas no âmbito formal, corre o risco de aprofundar a sua precarização. Nessa direção, a tragédia apontada por Marx não seria as estiagens características do clima do sertão nordestino, mas antes, a estiagem crônica que atravessa o capital, que com sua aridez peculiar, coloca o camponês em permanente êxodo.

 

Considerações finais

 

Até o momento do estudo empreendido, percebeu-se no romance Vidas Secas que a realidade retratada do meio rural brasileiro reflete uma sociedade que organiza-se a partir de uma da lógica do trabalho explorado e de uma consequente desumanização.

Nessa direção, como não mudaram as relações de produção, conserva-se ainda na atualidade as condições de exploração e miséria. Nesse sentido, as iniciativas relacionadas a educação formal, ao longo dos quase oitenta anos de publicação do romance Vidas Secas foram estabelecidas na direção de corroborar com a lógica do capital, da sua reprodução, distanciando-se assim, de uma perspectiva que articule trabalho e educação para uma nova sociabilidade.

A concretização desse fato, reside em um movimento, que vai da total ausência da oferta da educação para os povos do campo a uma educação que "qualificaria" para o mercado de trabalho, desenvolvida sob uma lógica que nem considera as peculiaridades e nem oferece uma formação geral, distanciando ainda mais, a escola da vida.

A curva fora dessa linha tem sido realizada, principalmente por experiências desenvolvidas pelos movimentos sociais, que tentam em meio as determinações avassaladoras da estrutura vigente, buscar frestas nas contradições do próprio sistema, para nas possiblidades relativas que detém a educação, rumar na direção de projetos formativos alternativos e de uma nova sociabilidade.

 

Palavras-chave: Trabalho e Educação. Princípio educativo. Educação do campo.

 

Referências

 

GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. Volume 2. Tradução de Carlos Nelson Coutinho.

 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

 

MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004.

 

________. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011.

 

________. O método da economia política. In: Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011. p. 54-61.

 

RAMOS, G. Vidas secas. São Paulo: Record, 2017.

 

SAVIANI, D. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Brasileira de Educação. v. 12 n. 34. jan./abr. 2007, p. 152-180.