EIXO TEMÁTICO: EDUCAÇÃO E EMANCIPAÇÃO HUMANA: CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA HISTÓRICO CULTURAL
APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO NA IDADE ESCOLAR: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DA PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL
Roselene Silva Teixeira - Universidade Federal do Ceará - roselene.teixeira@hotmail.com[1]
Francisca Maurilene do Carmo - Universidade Federal do Ceará - fmcmaura@hotmail.com[2]
Josefa Jackline Rabelo - Universidade Federal do Ceará jacklinerabelo@uol.com.br[3]
Introdução
O presente trabalho originou-se de uma pesquisa bibliográfica realizada no interstício de 2016-2017 com o objetivo de resgatar o papel revolucionário que a consciência, na perspectiva de Vigotski, assume no movimento de auto construção do indivíduo e do gênero humano.
Com base em estudos realizados acerca da teoria vigotskiana, sabe-se que as funções psicológicas existentes no homem, consideradas elementares, tornam-se superiores a partir da experiência do trabalho, ou seja, por meio da interação do homem/natureza tais funções vão se complexificando. Na criança pequena esse processo inicia-se de forma mais articulada a partir idade escolar, por meio das atividades que esta realiza, ou seja, o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos envolve interações e experiências, possibilitando a tomada de decisões no contexto das situações vivenciadas em seu cotidiano.
Sabemos que durante o período pré-escolar a criança encontra-se em fase de desenvolvimento em todos os seus aspectos, por isso, muitos estudiosos debruçam-se sobre a relação desenvolvimento e aprendizagem que, segundo Vigotski et al (2014), são processos distintos porém relacionados. Até chegar a esta formulação Vigotski põe em revisão as perspectivas existentes acerca da temática. Entre elas podemos citar, a que compreende aprendizagem e desenvolvimento como processos independentes. Assevera ainda que a criança que frequenta a escola, tem impulsionado os referidos processos, estando a aprendizagem como elemento determinante dessa articulação.
Para Vigotski et al "o processo de maturação prepara e possibilita um determinado processo de aprendizagem, enquanto o processo de aprendizagem estimula, por assim dizer, o processo de maturação e fá-lo avançar até certo grau" (2014, p.106). Desse modo, inferimos que a aprendizagem que, por sua vez, irá provocar no indivíduo mudanças em seu comportamento, contribuirá de forma efetiva com o seu desenvolvimento geral, de modo que a aprendizagem leva o indivíduo a dar um salto maior em seu desenvolvimento, isto é, o desenvolvimento provocado pelo processo de aprendizagem no sujeito alcança proporções maiores que a própria aprendizagem.
Metodologia
Realizamos uma pesquisa teórico-bibliográfica com o aporte teórico na ontologia marxiana, analisando o papel do desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como processo importante no evolver da consciência humana.
Discussão dos resultados
A aprendizagem escolar dá um curso totalmente novo ao processo de desenvolvimento da criança. No entanto a aprendizagem da criança inicia bem antes da idade escolar, pois esta traz consigo uma pré-história, isto é, experiências do seu cotidiano que lhe proporcionaram aprendizagens significativas. É necessário saber quais os conhecimentos já adquiridos pela inteligência efetiva da criança bem como a sua área de desenvolvimento potencial, ou seja, aquilo que a criança é capaz de fazer com a ajuda do adulto. Conforme Vigotski et al "a área de desenvolvimento potencial permite-nos, pois, determinar os futuros passos da criança e a dinâmica do seu desenvolvimento e examinar não só o que o desenvolvimento já produziu, mas também o que produzirá no processo de maturação" (2014, p.113). Logo, acredita-se que aquilo que a criança consegue fazer com a ajuda de um adulto no futuro poderá realizar sozinha.
Nessa perspectiva, o educador deve se basear pelo nível psicointelectual da criança utilizando-o como limite para aquilo que ainda não foi superado, e apresentar desafios que conduzam a criança à superação desses limites, sem se limitar apenas ao que o educando já consegue resolver, pois é na busca da solução de situações problemas, como por exemplo numa discussão entre crianças, que a criança utiliza a linguagem como um meio de comunicação e o pensamento surge como uma atividade interna do sujeito que o conduz ao conhecimento das bases do seu próprio pensamento, o que podemos chamar de consciência de si. Desse modo, concebe-se que "o único bom ensino é o que se adianta ao desenvolvimento" (VIGOTSKI et al, 2014, p.114).
No que concerne a realização da atividade interna do sujeito, com o auxílio da linguagem, utilizando a fala, a criança inicia a recodificação das informações que chegam com a atividade de nomear os objetos e classificá-los, utilizando o sistema verbal; a criança torna a analisar e classificar as impressões recebidas no mundo exterior e a analisar essas informações. Com isso, aparece a percepção por meio da fala, a memória ganha uma nova estrutura tornando-se lógica e intencional, e a atenção voluntária e a experiência emocional da realidade passam a ter novas formas. Desse modo chega-se a atividade consciente, que somente a espécie humana possui a capacidade de realizar.
Por isso, na ação docente é de suma importância apresentar à criança símbolos e signos que possibilitem o desenvolvimento de uma aprendizagem significativa, despertando na criança o desejo pelo conhecimento a ser adquirido nas disciplinas formais.
É importante saber que aprendizagem não se resume a um conjunto de hábitos adquiridos, mas, trata-se de uma fonte de desenvolvimento. Além disso, "o intelecto não é precisamente a reunião de determinado número de capacidades gerais - observação, atenção, memória, juízo etc. - mas sim a soma de muitas capacidades diferentes, cada uma das quais em certa medida, independente das outras." (VIGOTSKI et al, 2014, p.108).
Em suma, o processo de aprendizagem está devidamente ligado ao processo de desenvolvimento dos sujeitos por meio do desenvolvimento de suas funções psíquicas. Conforme o conceito formado por Vigotski (2007) acerca do desenvolvimento de tais funções, concebe-se que estas a princípio fazem parte do sujeito em suas relações com o meio natural, sendo que, por meio da atividade dominante que este realiza as suas funções psíquicas tornam-se complexas e passam a serem superiores. Segundo ele, as funções psíquicas superiores possuem como característica essencial a estimulação autogerada, elaborando estímulos artificiais que dão origem a causa imediata do comportamento (VIGOTSKI, 2007, p. 58). Desse modo, "Todas as funções superiores originam-se das relações reais entre indivíduos humanos".
Considerações finais
Os processos de desenvolvimento da aprendizagem ocorrem apenas no sujeito consciente, ou seja, que possui "uma forma complexa de recepção ativa da realidade" (VIGOTSKI et al, 2014, p. 221).
Para Vigotski et al (2014), a consciência é uma totalidade formada por um complexo sistema de funções psicológicas, que passam por alterações ao longo das experiências vividas pelo homem, com desdobramentos determinantes no seu processo de desenvolvimento.
Assim, podemos concluir que o desenvolvimento cognitivo e intelectual do homem se dá de modo complexo por meio das interações que este realiza. Ademais, isso não poderia ocorrer sem o salto ontológico somente possível a partir do trabalho, dando origem ao ser social, dotado de uma consciência.
Referências
VIGOTSKI, Lev Semenovich. A formação Social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
VIGOTSKII, Lev Semenovich; LURIA, Alexander Romanovich; LEONTIEV, Alex N. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. 12ª ed. São Paulo: Ícone, 2014.
[1] Graduanda do Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Ceará - UFC. Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica - PIBIC.
[2] Universidade Federal do Ceará. Professora da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira (PPGEB/UFC). Pesquisadora do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário - IMO/UECE. Doutora de Educação Brasileira pela UFC. Pós-Doutorado em Educação na Universidade Federal da Paraíba - UFPB.
[3] Universidade Federal do Ceará. Professora da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira (PPGEB/UFC). Pesquisadora do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário - IMO/UECE. Fortaleza, Ceará, Brasil. Doutora de Educação Brasileira pela UFC. Pós-Doutorado École des Hautes Études em Sciences Sociales - EHESS- Paris- Franca.