CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL PARA COMPREENSÃO DA SINGULARIDADE DA INFÂNCIA
Cristiane Sousa Moura Teixeira : Universidade Federal do Piauí;cris_smoura23@hotmail.com
Larucey Maria de Moura ; Universidade Federal do Piauí; lauricey16@hotmail.com
EIXO TEMÁTICO: EDUCAÇÃO E EMANCIPAÇÃO HUMANA: CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA HISTÓRICO CULTURAL
INTRODUÇÃO
A Modernidade inaugurou uma nova forma de compreensão acerca da criança, provocada pelas mudanças que ocorreram naquele momento histórico, tais como: o desenvolvimento do conhecimento científico, o que possibilitou a compreensão das condições biológicas da criança; as mudanças nas condições higiene, já que esta traz como principal consequência a diminuição do índice de mortalidade infantil; o surgimento da escola e com esta modifica-se a relação do Estado para com a criança, pois passam a e preocupar com o bem estar da criança, o que produz o sentimento de responsabilidade em relação a esta.
Ressaltamos que estas mudanças não se sucederam todas na Modernidade, mas resultaram de um longo processo histórico e social que culminou com nova forma de compreender a criança e, por conseguinte, a infância tornou-se um conceito fundamental para explicar a singularidade do ser criança Ariès (1981) destaca esse processo histórico, evidenciando como os sentimentos de infâncias foram se formando e se tornando evidente nas obras de arte a partir do século XVI.
Pensando acerca destas questões, é que o presente trabalho tem o objetivo de discutir as contribuições da Psicologia Histórico-cultural para compreensão da singularidade da infância. Para isso, apoiamo-nos nas ideias desenvolvidas pelos autores da Psicologia Histórico-cultural, sobretudo Vigotski e Luria (ANO) e nas ideias de Ariès (1981). Assim, nossa discussão se desenvolve, destacando o desenvolvimento dos sentimentos de infância e, como a Vigotski e Luria (1996) consideram no que consiste a singularidade da infância.
Metodologia
O presente estudo consiste no resultado dos primeiros estudos acerca da infância que está sendo desenvolvido como parte da execução de Plano de Trabalho no PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica). Assim, até o momento nossos estudos estão centrados na História Social da Família e da Criança de Philipe Ariés (1981) e no estudo da obra O macaco, o primitivo e a criança de Vygotsky e Luria (1996)
Resultados e Discussão
Esta comunicação organiza-se em duas ideias centrais que se complementam: a primeira de que a infância é um conceito desenvolvido histórica e socialmente; a segunda ideia diz respeito à singularidade da infância. Desse modo, entendemos que a psicologia histórico cultural oferece conhecimentos importantes para compreensão da singularidade da infância, assim como, a discussão de Ariés (1981) acerca da infância oferece subsídios importantes para compreendermos os aspectos históricos que medeiam o desenvolvimento do conceito de infância.
Ariès (1981) esclarece como surge o sentimento da infância, para isso, o autor explica como surge a preocupação com as idades da vida, com o traje das crianças e como os jogos e brincadeiras passam a se constituir em atividades próprias da criança.
A descoberta da infância, para Ariès (1981), começou a partir do século XVII, e sua evolução podendo ser acompanhada na história da arte e na iconografia dos séculos XV e XVI. Os sinais do seu desenvolvimento tornaram-se particularmente numerosos e significativos a partir do fim do século XVI, em que sofreu influência do cristianismo e esteve ligada também ao mistério da maternidade, pois anteriormente a esta data, por volta do século XII, as pinturas medievais retratavam as crianças mediantes as características dos adultos, havendo distinção somente por seu tamanho. Disto Ariès (1981) considera que a criança era concebida como adulto em miniatura.
No início do século XIII começou a existir um sentimento de representação da criança de forma mais sutil, diferenciando-a dos traços dos adultos, é quando a criança passa ser representada como anjo, ou representada como menino Jesus ou Nossa Senhora se menina e, ainda a representação da criança nua. Era o início de um processo que ocorreria de forma gradativamente, sendo possível ser acompanhado nas obras de artes, referente a cada século. Acerca dos sentimentos de infância que surgem ao longo dos séculos, o autor destaca dois: um que proveio do seio familiar, o sentimento denominado por ele de paparicação, o qual correspondia ao
[...] prazer provocado pelas maneiras das crianças pequenas, o prazer que sentiam em "paparicá-las". [...] Este sentimento da infância pode ser melhor percebido através das reações críticas que provocou no fim do século XVI e sobretudo no século XVII. Algumas pessoas rabugentas consideravam insuportável a atenção que se dispensava então às crianças: sentimento novo também, como que o negativo do sentimento da infância a que chamamos de "paparicação". (ARIÈS, 1981, p. 101).
E o sentimento em que se revela por meio do interesse psicológico e da preocupação moral. De acordo com Ariès (1981) esse sentimento proveio de fonte externa à família, dos eclesiásticos ou dos homens da lei, os quais manifestaram sensibilidade ante à negligencia da infância e preocupados com a moralidade e com a higiene e saúde, recusaram-se "a considerar a criança como brinquedos encantadores, pois viam nelas frágeis criaturas de Deus que era preciso ao mesmo tempo preservar e disciplinar" (ARIÈS, 1981, 105).
Considerando que o desenvolvimento do organismo da criança é um sistema complexo de metamorfoses Vigotski e Luria (1996) explicam que a singularidade da criança encontra-se no fato de que esta não difere do adulto apenas no que diz respeito aos aspectos quantitativos, mas difere qualitativamente deste tanto no que diz respeito à lógica, estrutura do corpo e suas proporções e ainda, nas funções do seu corpo, sobretudo, as funções relacionadas às funções psicológicas tipicamente humanas.
Os autores explicam que a partir dos cinco meses de idade as funções orgânicas estarão aptas a interagir com o meio cultural, absorvendo os conteúdos externos, e criando sua própria identidade, através de suas experiências com a realidade no qual, passa a ter contato diariamente, sendo mediada sempre por um adulto e passando por uma série de etapas, até estar completamente adaptada com o mundo externo, aos poucos essa conexão vai ficando cada vez mais forte, sendo que cada etapa será decisiva e importante para a metamorfose da fase seguinte. Assim, o desenvolvimento da criança envolve a evolução biológica, a evolução histórico-cultural e o desenvolvimento individual de uma personalidade específica. Somente considerando estes três elementos podemos compreender a singularidade da criança e, portanto, o conceito de infância.
A discussão desses dois autores reiterou, para nós a importância do conhecimento das fases da criança e do sentimento de infância com uma forma de processos percorridos de forma que o meio cultural pode interferi de forma significativa no desenvolvimento da sua singularidade.
Considerações Finais.
Concluímos a importância de se conhecer a história cultural da infância e os processos que levaram a uma nova visão acerca da criança e, portanto ao desenvolvimento do conceito de infância, que temos atualmente, através do estudo desses dois autores, percebemos a importância dos aspectos histórico-sociais e culturais para compreendermos como ocorre o desenvolvimento da infância e sua singularidade. Esperamos que este estudo possa contribuir para com as discussões em torno dessa temática, com o propósito de despertar mais curiosidade sobre a Psicologia Histórico-Cultural.
Palavras-Chave: Infância. Psicologia Histórico-cultural. Desenvolvimento humano
Referências Bibliográficas
ARIÈS, P. História social da infância e da família. Tradução: D. Flaksman. Rio de Janeiro: LCT, 1978.
VYGOTSKY, L. S.; LURIA, A. R. A criança e seu comportamento. In: VYGOTSKY, L. S.; LURIA, A. R. Estudos sobre a história do comportamento: o macaco, o primitivo e a criança. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996
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